São 7h30 de uma terça-feira fria em Curitiba e o Parque Barigui já parece outro lugar. No canto leste, onde antes ficava um gramado meio abandonado, agora existe concreto curvo, corrimãos de aço inox e uma fila de adolescentes esperando a vez no bowl. Ninguém acreditava que ia acontecer — mas aconteceu.
A nova pista de skate do Barigui foi inaugurada no último sábado com uma sessão coletiva que reuniu mais de 300 pessoas. Skatistas de todas as idades, de crianças de oito anos a veteranos da cena dos anos 90, dividiram o espaço com BMX, patins e até um grupo de dançarinos de breaking que aproveitou o piso liso para ensaiar. O clima era de festa, mas também de alívio: depois de quase uma década de promessas, projetos engavetados e reuniões que não iam a lugar nenhum, Curitiba finalmente entregou.
Como chegamos aqui
A história dessa pista começa em 2017, quando um coletivo chamado Curitiba Skate Livre apresentou um abaixo-assinado com 12 mil nomes à prefeitura. A demanda era simples: um espaço público, gratuito e bem projetado para a prática do skate. Na época, a resposta oficial foi um "estamos analisando" que durou anos.
Enquanto isso, a cena local se virava como dava. Skatistas usavam calçadas, praças e — quando a polícia não aparecia — o entorno do Shopping Palladium. "A gente era tratado como problema urbano", lembra Thiago Ribeiro, de 24 anos, um dos fundadores do coletivo. "Mas o problema nunca foi o skate. O problema era a cidade não ter espaço pra gente existir."
O ponto de virada veio em 2024, quando a prefeitura abriu um processo participativo inédito: skatistas, arquitetos e engenheiros trabalharam juntos no projeto final. A empresa responsável pelo design, a paulista ArqSkate, é especializada em pistas públicas e já havia feito trabalhos em São Paulo, Recife e Fortaleza. Em Curitiba, eles passaram três meses ouvindo a comunidade antes de desenhar a primeira linha.
"Não adianta construir uma pista bonita se ela não funciona pra quem vai usar. A gente testou cada transição, cada altura de corrimão, com skatistas reais antes de concretar." — Ana Luiza Ferreira, arquiteta do projeto
O que tem na pista
Com 2.400 metros quadrados, a pista do Barigui é a maior estrutura pública de skate do Paraná. O layout inclui:
- Um bowl profundo de 2,4 metros, ideal para transições e aerials
- Uma área street com degraus, corrimãos, manual pad e funbox
- Um pump track para iniciantes e crianças
- Iluminação LED para sessões noturnas até 22h
- Bebedouros, banheiros e um ponto de first aid permanente
O concreto é liso, sem aquelas juntas mal feitas que destroem rolamentos em duas sessões. Os corrimãos são arredondados, pensados para grinds longos. E, detalhe que fez diferença: tem tomada elétrica nos cantos, porque filmar e fotografar sessões virou parte essencial da cultura do skate.
A cena que nasceu enquanto esperávamos
Curitiba sempre teve skatistas talentosos, mas faltava infraestrutura — e visibilidade. Com a pista pronta, isso mudou rápido. Em menos de duas semanas, três marcas locais anunciaram patrocínio a atletas amadores, uma loja de skate abriu filial a duas quadras do parque, e o Instagram do coletivo Curitiba Skate Livre ganhou 4 mil seguidores novos.
Mariana Santos, de 17 anos, é uma das skatistas mais comentadas da cena local. Ela começou aos 11, praticando no estacionamento do clube do bairro. Hoje, com a pista do Barigui, ela treina todos os dias depois da escola. "Antes eu tinha que pedir carona pro Shopping Palladium e torcer pra ninguém mandar embora. Agora eu pego o ônibus e desço aqui. É meu lugar."
A Mariana não é exceção. Segundo dados preliminares da prefeitura, a pista recebe uma média de 180 visitantes por dia — número que deve subir no verão. O horário de pico é entre 16h e 19h, quando a galera sai da escola e do trabalho.
Críticas e cuidados
Nem tudo são flores. Alguns moradores do entorno reclamaram do barulho das rodas no concreto, especialmente nos fins de semana. A prefeitura respondeu instalando uma mureta acústica no lado que dá para a Avenida Cândido Hartmann e limitando sessões de som amplificado.
Também houve debate sobre a falta de cobertura. Curitiba chove muito, e uma pista molhada é inutilizável — e perigosa. O coletivo pediu uma estrutura parcial de telhado para a área street, mas o orçamento não coube. "É a próxima batalha", diz Thiago. "A pista existe. Agora a gente cuida dela."
E cuidar, nesse caso, significa manter. O coletivo organizou um mutirão de limpeza todo domingo de manhã. Recolhem lixo, verificam se algum corrimão soltou, e reportam problemas à prefeitura por um canal direto no WhatsApp. Funciona — até agora, nenhum vandalismo sério foi registrado.
O que isso significa para outras cidades
Curitiba não é a primeira capital a investir em skate, mas o modelo participativo chamou atenção. Belo Horizonte, Florianópolis e Goiânia já entraram em contato com o coletivo para entender como replicar o processo. A lição é clara: quando a cidade ouve quem usa o espaço, o resultado é melhor — e a comunidade cuida do que é dela.
Para Thiago, a pista do Barigui é mais do que concreto. "É prova de que a gente não precisa pedir permissão pra existir. Precisava de um lugar. Agora a gente tem — e vai usar todo dia."
Na terça-feira de manhã, enquanto o sol ainda é fraco e o orvalho molha o concreto, Mariana já está lá. Ela desce o bowl pela terceira vez, erra o aterriso, ri, e sobe de novo. O Barigui acordou diferente. E parece que vai continuar assim.