Tem fila na porta de um sobrado em Santa Tereza toda quinta-feira. Não é bar, não é galeria, não é casa de show. É o Cine Beco — uma sala com 42 poltronas, projetor 4K e programação que mistura cinema nacional independente, documentários de autor e sessões especiais com debate depois da projeção. Ingresso: R$ 18. Lota toda semana.

Belo Horizonte sempre teve relação com cinema. A cidade é berço de diretores como João Batista de Andrade e Carlos Reichenbach, sediou festivais reconhecidos e formou gerações de cineastas nas universidades locais. Mas nos últimos dois anos, algo diferente aconteceu: o cinema deixou de ser coisa de festival e virou rotina de bairro. Microcinemas, coletivos de exibição e salas alternativas estão surgindo em praticamente todos os cantos da capital mineira — e o público está respondendo.

O mapa do cinema alternativo

Hoje, BH conta com pelo menos 11 espaços de exibição independente — número que triplicou desde 2023. Cada um com identidade própria:

Os multiplexes de shopping não fecharam — mas perderam exclusividade. Quando um filme independente estreia em BH hoje, é comum que a sessão de maior público aconteça no Cine Beco, não no cinema de rede.

Quem está por trás

Os responsáveis por essa transformação não são empresários de mídia. São, em sua maioria, ex-estudantes de cinema, programadores culturais e cinéfilos que cansaram de esperar que alguém montasse a sala que eles queriam frequentar.

Paulo Henrique Gomes, de 31 anos, fundou o Cine Beco em 2024. Antes, trabalhava como editor de vídeo e montava sessões clandestinas na garagem de casa — literalmente. "Tinham 15 cadeiras, um projetor emprestado e muito vinho. As pessoas vinham porque queriam conversar sobre o filme, não só consumir e ir embora", conta.

Quando o sobrado em Santa Tereza ficou disponível por um aluguel surpreendentemente acessível, Paulo e mais três amigos juntaram economias, fizeram crowdfunding e montaram a sala em seis semanas. A estreia foi com "Ainda Estou Aqui" — filme que, curiosamente, também estava em cartaz nos multiplexes. A diferença: no Cine Beco, a diretora veio pessoalmente debater com o público depois.

"Multiplex te dá pipoca. A gente te dá conversa. É outra experiência — e o público de BH parece ter sede disso." — Paulo Henrique Gomes, fundador do Cine Beco

Por que agora?

Três fatores explicam o boom do cinema indie em BH. O primeiro é econômico: aluguel de imóveis comerciais na cidade caiu entre 15% e 22% desde 2022, tornando viável montar salas pequenas em bairros centrais. O segundo é tecnológico — projetores 4K de qualidade profissional, que custavam R$ 80 mil em 2018, hoje saem por menos de R$ 25 mil.

O terceiro, e talvez o mais importante, é cultural. A geração que cresceu consumindo conteúdo em streaming desenvolveu apetite por experiências presenciais curadas. Ir ao cinema virou evento social — e salas pequenas, com programação pensada e ambiente acolhedor, oferecem exatamente isso.

Renata Oliveira, de 26 anos, vai ao Cine Beco toda semana. "No streaming eu vejo filme no celular, distraída, pausando toda hora. Aqui eu sento, desligo o telefone e fico duas horas imersa. Depois converso com desconhecidos sobre o que acabei de ver. Isso não tem preço."

O cinema mineiro que o Brasil não conhece

Uma consequência direta do crescimento das salas alternativas é a visibilidade de produções locais. BH tem pelo menos 40 coletivos de produção audiovisual ativos — muitos formados por egressos da UFMG e da Escola de Cinema de São Lourenço. Antes, esses filmes tinham público em festivais e praticamente desapareciam depois. Agora, têm cartaz.

O CineClube da Lagoa reserva toda primeira quarta-feira do mês para "Quarta Mineira" — sessão dedicada exclusivamente a filmes produzidos em Minas Gerais. A média de público é de 120 pessoas por sessão, muitas sentadas no chão quando as cadeiras acabam.

Frames, o espaço de cinema experimental na Floresta, foi ainda além: montou um laboratório de pós-produção compartilhado onde cineastas independentes podem finalizar seus filmes por uma fração do custo de mercado. Três longas-metragens finalizados no lab estrearam em salas alternativas de BH nos últimos seis meses.

Desafios reais

Nem tudo é prosperidade. Manter uma sala de cinema pequena no Brasil é difícil — custos de direitos autorais, manutenção de equipamento e sazonalidade de público apertam o orçamento todo mês. Dois espaços que abriram em 2024 já fecharam: o CinePorta, na Pampulha, e a Sala 7, no Centro.

A Lei Rouanet reformada também complicou. Antes, microcinemas conseguiam captar recursos via incentivo fiscal com relativa facilidade. Com as novas regras, projetos menores competem com produções maiores e muitas vezes perdem. "A gente sobrevive de ingresso, bar e parcerias locais", diz Paulo. "Incentivo fiscal seria oxigênio, mas não dá pra depender."

Outro desafio é a pirataria digital disfarçada de acesso. Plataformas de streaming que prometem "cinema de autor" por R$ 20/mês competem com salas que cobram R$ 18 por sessão. A diferença, argumentam os exibidores, é a experiência — mas convencer o público exige marketing constante.

O que vem por aí

Apesar das dificuldades, o otimismo prevalece. A Associação de Exibidores Independentes de Minas Gerais (AEIM), fundada em janeiro de 2026, já reúne oito salas e está negociando compra coletiva de direitos de exibição — o que reduziria custos em até 40%.

Em agosto, BH vai sediar a primeira Mostra Itinerante de Cinema de Bairro, com sessões simultâneas em seis salas alternativas durante dez dias. A programação inclui estreias nacionais, clássicos restaurados e workshops de crítica cinematográfica abertos ao público.

Para Renata, que já comprou ingresso para três sessões da Mostra, a explicação é simples: "BH sempre teve alma de cidade cultural. Agora a gente finalmente tem lugar pra sentar e ver filme do jeito certo."

Na quinta-feira, a fila no Cine Beco começa a se formar às 18h. Sessão das 20h. Filme brasileiro, estreia exclusiva, debate com o diretor depois. R$ 18. Se você mora em BH e ainda não foi, talvez seja hora de descobrir o que está acontecendo nos becos da cidade.